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Eduardo Medina Guimarães

Depois da Chuva - Prefácio

Há numa vila todos os males do mundo e algumas virtudes possíveis. Em um cosmo de medidas minúsculas, um oceano de conflitos pode ser maior do que a imensidão que o circula e o compreende. Há amor e dor, há poder, pudores e devassidões; há vencidos, vencedores e, sobretudo, alheios. Foi assim em Abarama e em Lagoa Branca, cidades imaginadas por Josué Guimarães. É assim na cidade que serve de palco e cenário para Depois da chuva, de Eduardo Guimarães. Ambos Guimarães, realistas em tempos distintos. Ambos envolvidos, também, em uma ruptura com os limites da razão. O tio de Eduardo Guimarães escrevia com a urgência de quem pretendia interferir no presente de então, quando se ampliavam as injustiças, quando se solidificavam as desmedidas do poder do Estado burocrático-autoritário. Golpe e ditadura civil-militar estavam nas vésperas da vida trilhada pelo jornalista que começava a escrever literatura já maduro, na década de 70. Golpe e retrocesso estão na ordem do dia da escrita do sobrinho de Josué (que passou de personagem, em A casa das quatro luas, a autor). Pensando bem, tempos assemelhados, aparentados, oportunos a uma estética de resistência ou, ao menos, uma escrita que perturbe os limites do conhecido quando as “luzes” não são suficientes para obstruir a barbárie humana, a violência aberta e o ódio manifesto.

Interessante é que há um “depois” nos títulos de livros de tio e sobrinho. O mais velho escreveu Depois do último trem, obra que mostra o afogamento de uma sociedade por um sistema anônimo, exato, calculado, letal. A cidade é um abandonar-se a um tempo em que antes e depois se misturam, em que a morte retorna cíclica e feia, em que um bestiário em prontidão amaldiçoa os desesperados. Nesse destino “sem tábua de salvação”, como já referiu Sergius Gonzaga sobre a poética do autor de Camilo Mortágua, as águas que chegam não deixam esperança futura. Nada segue ao dilúvio. Para Eduardo Guimarães, contudo, é o calor e a terra seca que parecem reservar algo muito ameaçador na vila que se insere, perturbadoramente, na constelação literária de cidades de mortos retornados, de incidentes históricos sustentados por sacrifícios individuais, de janelas e portas abertas dias inteiros para o olhar dos bisbilhoteiros e à invasão dos fantasmas. Na cidade do jovem Guimarães, onde “as coisas já nascem mortas” e a vida transcorre lenta, há um mistério sobre como pode avançar um tempo que se foi, como pode curar-se uma ferida que não poderia e nem deveria ter cura. Em um “depois” que aguarda a todos, mortos ou vivos,  há algo além de alguma consequência previsível, um possível castigo coletivo imposto como imobilidade para sempre. Por todos seus erros, há uma eternidade de angústias prometendo-se aos que moram na pequena vila fundada por um militar e sua família. Talvez uma eternidade que envelheça como o mito de Sibila em um jarro suspenso. Morrer na escuridão seria o mais leve dos castigos; pior é eternizar-se em existência sem sentido.

Depois da chuva trata deste tipo de segredo: quando alguém retorna da morte, há entre os vivos o pânico perante a imortalidade exposta. Os cabelos cortados de um defunto retornado à pequena vila sem descendentes, de indivíduos atirados ao local por um passado sem maiores propósitos, mostram que os fios da vida estão estranhamente emaranhados, sem pontas, sem início e sem fim, no chão de histórias que, porventura, se arriscam a jamais serem varridas. E nessa circunstância, a ordem perturbada pelo sobrenatural é menos assustadora do que a ausência de motivos de ser em um mundo à parte, abandonado pela sorte...

Miguel Rettenmaier

ALJOG/UPF – Acervo Literário de Josué Guimarães

Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo

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Artista Plástico, Advogado e Escritor

      Eduardo Medina Guimarães, nascido em 18 de julho de 1967 na Cidade de Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. É Advogado militante e também artista plástico especializado na técnica da aquarela. Foi professor desta modalidade de pintura por mais de vinte anos, tendo ministrado cursos e palestras de aquarela no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, no Ateliê Livre da Prefeitura de Porto Alegre bem como em vários ateliers do Estado e em Santa Catarina. Tem mostras de arte no País e Exterior.

     Na literatura desenvolve a escrita desde os 16 anos, tendo feito a Oficina Literária de Antonio de Assis Brasil em 1990 na Puc. Trabalha com contos, romances, novelas e atualmente desenvolve um livro ainda inédito de poesias.

     Tem livro em fase de publicação também na área do Direito, sobre o Dano Moral. Possui atuação intensa junto a Ordem dos Advogados do Brasil Seccional do Rio Grande do Sul.

     Mora e trabalha no Bairro de Ipanema em Porto Alegre, onde mantém escritório e ateliê. É casado e pai de um menino.